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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Amigos fáceis, amigos sinceros

Amigos, sinceridade, relacionamento, vida, amizade - http://www.samuelbonette.blogspot.com.brHá um tempo atrás fui a um churrasco com amigos. Um deles levou seu filho, que deve ter uns quatro ou cinco anos. Assim que chegamos na churrasqueira, ele avistou um playground e foi lá brincar. Nós ficamos ali, salgamos e espetamos a carne, fizemos o fogo e colocamos a carne para assar, como bons gaúchos que somos. Passado um tempo, o guri começou a me chamar para brincar e eu respondi que ele era “muito velho para brincar comigo”. Ele ainda insistiu um pouco mas logo desistiu quando outra criança aproximou-se com um cachorro. Sem cerimônia alguma, simplesmente foi ao encontro daquela criança e em dois minutos já estavam conversando e brincando como velhos amigos.

Quanta naturalidade em fazer novas amizades!

  Notem que eu disse naturalidade, e não facilidade. Disse o senhor Aristóteles que o homem é um animal social, mas não definiu a intensidade desta socialização. Por vezes é realmente difícil a interação entre seres humanos, como posso notar em várias situações, mas não entre crianças. Para elas, o outro é simplesmente... outro. Em geral, não tem malícia, não tem maldade, não tem pré-conceitos, não tem dificuldade, meandros, melindres, burocracias, expectativas exacerbadas, formalidades, cerimônias, desconfiança ou outra coisa que as impeça de se aproximarem e começar uma conversa.  Já adultos, os “super-humanos”, capazes, instruídos, experientes, não conseguem fazer isto de forma simples! É impressionante! Fico me perguntando em que momento perdemos esta habilidade.

Claro que, de forma alguma, desprezo o fato de que há pessoas mais introvertidas e outras mais extrovertidas, o que facilita ou dificulta a tarefa de fazer novos amigos (mas também me pergunto quanto que esta própria característica é nata ou introjetada). Também não desprezo a maldade ou a inclinação para fazer o mal que as pessoas tem e o quanto que isto nos limita ou nos deixa “com um pé atrás” na hora de fazermos novas amizades, mas ainda assim, não consigo entender a dimensão da naturalidade das crianças versus dificuldade dos adultos. Não me parece razoável nem me é compreensível.

Talvez percamos esta naturalidade quando notamos que conseguimos tirar vantagens dos outros e ao mesmo tempo não queremos que façam isto conosco, ou, abstraindo e extraindo o conceito, quando queremos receber mais e dar menos. Defendo a tese que, se eu for dar algo, esta minha atitude tem que ser livre da expectativa de retribuição. Concordo que isto talvez não seja natural do ser humano, mas vejo muitas pessoas frustradas porque dão algo e não recebem o esperado em troca. Penso que deveriam estar felizes porque se propuseram a fazer algo e atingiram seu objetivo; se houver retribuição, melhor ainda; se houver a retribuição esperada, MARAVILHA!


Se não fazemos isto, nos tornamos ilhas. Nos tornamos como os países que querem manter sua balança comercial positiva então tentam comprar pouco e vender muito. Assim, se todos fazem isto, ninguém compra de ninguém e todos ficam estagnados. Amizades não funcionam assim. Não são quantitativas nem fórmulas matemáticas de soma, subtração, divisão e multiplicação. Entendo que deva haver doação sincera e, muito embora a maioria melhore com o tempo, também que não necessitam ser eternas ou intensas todo o tempo.

Me sinto, neste momento, agradecido por todos meus amigos. Não são poucos, não são todos da mesma profundidade, não posso os ver ou falar com todos sempre, porém todos possuem sua importância, momento e lugar no meu coração. Também não levo nenhuma mágoa ou ressentimento no coração nem mesmo daqueles que em algum momento tiveram um comportamento ou atitudes duvidosas pois estes, como diria o capitão Nascimento, me deram “um tombo para cima”. Só sigo em frente, buscando recuperar a naturalidade em fazer amigos, aumentar minha habilidade em valorizar as pessoas e ser feliz por tudo o que Deus me proporcionou e continua proporcionando. Muito obrigado, muito obrigado!!

Samuel Bonette

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Sim, há pessoas insubstituíveis

Sim, há pessoas insubstituíveis - www.samuelbonette.blogspot.com.br
E aí pessoal... é uma grande alegria poder estar aqui novamente escrevendo para vocês, leitores queridos, que me dão um pouco de seu tempo e a honra de seu prestígio aqui neste blog. Sem vocês aqui, com certeza, eu não seria tão feliz e realizado. Nem sempre é uma tarefa fácil escrever e também imagino que nem sempre seja fácil ler o que escrevo nestes dias em que “tempo é dinheiro” (vide Comprando o tempo), dias em que as pessoas querem “ler as figuras”, em que as pessoas ficam menos de 10 segundos num site e já abandonam o mesmo; mas vocês me dão este privilégio e agradeço a Deus pela vida de todos.


Aliás, justamente sobre isto que queria falar um pouco hoje: pessoas. Não há nada tão fácil e tão difícil ao mesmo tempo do que falar sobre pessoas, e aqui não me refiro a comportamentos ou sentimentos que elas tem, mas sim, falar sobre as próprias pessoas. Alguns podem afirmar que é fácil falar sobre isto um vez que a literatura atual tem sido invadida por este tema, especialmente no que tange a literatura empresarial, então há bastante referencial teórico para falar sobre isto; eu não poderia discordar dos que afirmassem isto, pois é esta a realidade.

Entretanto, parece que quanto mais se fala em pessoas, mais complexas elas ficam; é como se elas lessem os livros que falam sobre a complexidade do comportamento humano e incorporassem outras complexidades constantes nos mesmos, somando as suas e tornando-se uma teia refinada de complexidades próprias e adquiridas. Ontem mesmo falava com um amigo que ficou alguns anos numa empresa e lá passou por várias fases diferentes; o mesmo comentava sobre como é impressionante o que aprendeu com cada um dos times e gestores diferentes que teve. E o mais legal: ele ressaltava que, em todas as mudanças, sempre conseguiu pegar o que tinha de bom em cada uma delas.


E, sobre tudo o que poderia falar sobre as pessoas, gostaria de falar sobre uma característica que talvez seja a mais importante de todas: a singularidade. Somos mais de 7 bilhões de pessoas no mundo, cada uma diferente da outra, seja na aparência, modo de falar, andar, pensar, vestir, reagir diante de situações ou em qualquer outro aspecto que se possa pensar. Mesmo assim, por conta de existir esta quantia enorme de seres humanos, alguns acham fácil desprezar uma pessoa, pois “tem tantas outras”. Isto acontece especialmente no meio empresarial, onde as pessoas são contratadas pelas empresas para desempenhar uma determinada tarefa; como todos fazem a mesma coisa, usam o mesmo uniforme, tem o mesmo horário, estão no mesmo ambiente, com o tempo, aos olhos daqueles, tornam-se uma só coisa, uma massa disforme; e se algum destes “desprezíveis” não dá conta do recado, é rapidamente demitido e outro vem e toma o seu lugar, seguindo a mesma rotina mecanicista.

Obviamente que muitas vezes nos assemelhamos aos outros em algumas características, e normalmente quando isto acontece acabamos estabelecendo ligações com estes “iguais a nós”, formando grupos, formais ou informais. Isto torna quase que natural a comparação e avaliação das pessoas por um parâmetro único, e em algum momento admito que pode ser até salutar. Porém, se analisarmos cada um dos entes destes grupos, encontraremos dentro deles uma infinidade de características, opiniões, sentimentos e pensamentos que os diferenciam dos outros, tornando-o único e, sob esta ótica, é uma aberração considerar a simples hipótese de compará-las. Isto ocorre em qualquer atividade que se for desempenhar.

Acontece que as pessoas são, de fato, insubstituíveis (sem presunção alguma); podemos trocá-las por outras mas é impossível substituí-las porque cada uma faz o que faz do seu próprio jeito, de um jeito que nenhum outro poderia fazer; alguns podem fazer melhor, outros pior, mas jamais igual. Tenho aprendido isto e cada vez mais é importante termos isto fixo em nossas mentes, para podermos amar e valorizar as pessoas que temos ao nosso lado, os momentos que nos proporcionam, as possibilidades de caminhos diferentes a trilhar que trazem a nossas vidas e toda a complexidade que nos acrescentam, seja no âmbito familiar, profissional ou das amizades. Se alguém ainda tem alguma dúvida disto, faça o seguinte exercício: pense em trocar seus pais ou amigos por outros.



Samuel Bonette

sexta-feira, 6 de junho de 2014

N(amor)ados

N(amor)ados, namorados, mensagem 12 de junho - www.samuelbonette.blogspot.com
Junho é mês dos namorados! Independentemente de ser uma data comercial ou não, considero uma excelente iniciativa comemorar uma relação em que duas pessoas unem-se pelo mais nobre sentimento: o amor; lembro que, minha primeira postagem, no ano de 2007, intitulada "O beijo e o amor", falava sobre o amor, este sentimento que é tão especial e essencial nas nossas vidas. Como diria o poeta, “amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é dor que desatina sem doer” e por aí afora. Para se ter uma ideia da amplitude deste assunto, se tirássemos o tema “amor” das músicas  restariam menos que 10% delas, talvez. Diferentemente de outras coisas, salvo em pessoas portadoras de doenças psíquicas, nunca conseguimos ficar desapercebidos ou imunes a este sentimento que nos move.
        
O contrário do amor é a indiferença e não é o ódio, como muitos poderiam pensar; o ódio, em sua maioria, é um amor não correspondido, um amor frustrado ou ainda um amor traído. Neste momento em que a exaltação a uma relação amorosa fica tão em evidência, exposto nas vitrines dos rostos daqueles que amam, como é de praxe, há a reação natural da outra ala, a ala solteira (o que nem sempre significa solitária, como poderia se supor). Diversas são as reações: algumas engraçadas, outras carentes, raivosas, condescendentes e por aí afora. Conversando com alguém sobre amor, disse-me a pessoa: Estou esperando alguém me amar primeiro. Frase bonita, pensei na hora; logo em seguida, perguntei para mim mesmo: o que será que isto significa? Imaginei três opções:

1.      Simplesmente o velho recurso “quem desdenha quer comprar”, ou seja, "já que não tenho um namorado, então este dia não serve para nada; além do mais, o dia dos namorados só é realmente importante quando se tem um amor verdadeiro por trás de uma relação, fato este que nem sempre ocorre, portanto, não preciso disto"; 

2.    Medo de rejeição, pois, como é mais fácil dispensar do que ser dispensado, a pessoa até se propõe a passar horas agradáveis com uma pessoa bacana, mas se isto implicar em uma possibilidade ínfima de se magoar, então não vale a pena e é algo totalmente dispensável; poderia se chamar de “antes só do que mal acompanhado”;

3.    Realmente a pessoa está esperando alguém que dispense a verdadeira energia que o assunto merece.

Particularmente, acredito mesmo que a resposta seja esta última, embora possa soar um tanto contraditório; se analisarmos bem a questão, poderemos compreender que não é injusto nem incoerente o fato de, aquele que compreende a magnitude de um amor, espere conhecer uma pessoa que esteja disposta a envolver-se no emaranhado de sua subjetividade bem escondida abaixo de muitas camadas da sua objetividade; que queira conhecer uma pessoa que entenda que o amor é um dar sem esperar nada em troca e contentar-se simplesmente por ter dado; que o amor é um interesse íntimo e profundo pelo outro sem que necessariamente queira mudá-lo ou transformar o outro em uma cópia de seus gostos, interesses e comportamentos; que o amor é um bem precioso e que não se pode desperdiçá-lo com tolos, arrogantes, pretensiosos, narcisistas e outros mais que tem condutas deploráveis semelhantes a estas.

Entendo, portanto, que as vezes temos mesmo de esperar que aquela pessoa que é de nosso interesse nos ame primeiro para que depois possa receber nosso amor de uma forma completa e não-modular. Trata-se de carregar o amor consigo para entregá-lo a pessoa certa e isto não significa que deva ficar na defensiva com aqueles que tentam atar um relacionamento, mas sim que deve demonstrar que, talvez, seja mais interessante começar um relacionamento depois que ela compreender o alcance completo de seus atos, podendo assim nos conhecer e entender desde os detalhes mais sutis até nossos maiores medos e alegrias, tornando-se assim, ambos, refúgio para o outro, eternos amantes, namorados enamorados. 

domingo, 25 de maio de 2014

Graças a Deus, amanhã é segunda!!

Segunda, trabalho, emprego, satisfação - www.samuelbonette.blogspot.com
Dias atrás li no Facebook o seguinte comentário: Qualidade de vida é lavar a louça com água quente no frio. Devo admitir: é verdade! Isto deveria ser incluído pela ONU na medição do IDH do Rio  Grande do Sul. Num estado que já registrou temperaturas de -9,8⁰C, realizar qualquer atividade com água fria, no inverno, é um tormento. A frase foi formulada por uma amiga minha, fluminense (que é o nome dado aos que nascem no estado do Rio de Janeiro), que veio morar no Rio Grande do Sul e está convivendo com nosso rigoroso inverno. Se para nós, nascidos e criados aqui já é ruim, imaginem para uma pessoa que nasceu e foi criada num estado com temperaturas médias e máximas bem mais altas que estas dos pampas.

Entretanto, o que mais me chamou a atenção foi sobre o poder que pequenas coisas tem e quanto podem nos satisfazer em determinados momentos. Desconsiderando a piada que fiz anteriormente, sobre o IDH da ONU, entendo que muitas pessoas trocariam somas enormes de dinheiro por alguns pequenos prazeres que temos “gratuitamente” e nem sempre damos o devido valor: dormir uma boa noite de sono, sair tranquilamente com amigos, poder ver o sol iluminando o rosto das pessoas, receber carinho dos entes amados, ouvir o som das ondas do mar, etc. Realmente, as vezes é preciso pouca coisa para fazer o ser humano feliz e pelo menos em uma área específica das nossas vidas, até recebemos dinheiro para ser felizes: no trabalho .

Sou profissional da área de RH e, de forma recorrente, ocorre a discussão sobre o quanto a satisfação e motivação advém simplesmente do salário percebido ou de outras coisas, tais como ambiente de trabalho agradável, chefe legal, recebimento constante de elogios, etc. De forma quase que imediata lembramos de Maslow e sua teoria sobre as necessidades humanas. É interessante destacar que não necessariamente elas seguem uma ordem ou hierarquização, como normalmente são dispostas; por vezes um único fato ou objeto pode atender e satisfazer duas ou mais necessidades que não necessariamente estejam na sequência da pirâmide. Particularmente considero que o salário provém as necessidades mais elementares, como as necessidades fisiológicas (respiração, comida, água, etc.) e de segurança (família, recursos, saúde, etc.); se o salário não satisfizer estas condições, o sujeito facilmente trocará de salário, emprego ou empresa.

Por outro lado, defendo que o salário não é condição única a ser considerada, pois o trabalho é fonte de satisfação ou insatisfação pessoal e poucos (talvez ninguém) aceitariam trabalhar em algo que considere insuportável para si, mesmo que recebessem, para isto, uma alta soma em dinheiro. O dinheiro, como já falei, é importante, mas não é tudo na carreira profissional; sentir o prazer de atender a necessidade de outrem, cumprir a função social do trabalho, ter ciência que é competente em algo, estar realizado em sua profissão, obter conhecimento (entre outros tantos benefícios que o trabalho pode proporcionar) é a mais-valia ao contrário, ou seja, um lucro que o trabalhador obtém e que seu empregador jamais poderia, em hipótese alguma, pagar ou subtrair daquele. Reduzir o trabalho a simples relação de força ou tempo dispendido x dinheiro pago seria como reduzir a definição de um ser humano simplesmente ao seu nome, desprezando e desvirtuando o real valor do trabalho.

Entretanto, muito podem pensar que estou exagerando; para estes, faço uma consideração: infelizmente, alguns humanos desprezam ou se esquecem destes pequenos prazeres, são contaminados pela ganância e só dão o real valor a eles quando não os têm; não pretendo discutir com ninguém sobre isto, reservando-me simplesmente o direito de observar o seguinte trecho do discurso do Capitão Barbossa no primeiro filme da franquia Piratas do Caribe: “Quanto mais gastamos, mais nos demos conta que a bebida não satisfazia, a comida virava cinzas em nossas bocas o toda a companhia do mundo não saciava nosso desejo [...] Fomos movidos pela ganância mas agora somos consumidos por ela”.



Samuel Bonette

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Rótulos

Rótulos, relacionamentos, essência, vida - www.samuelbonette.blogspot.com
Há uns dias atrás estava com alguns amigos meus em um uma hamburgueria, conversando. Após um determinado tempo, nos despedimos deles e a Bibiana fez um comentário sobre um deles, conhecido de longa data. Ela disse: “Fulano de tal é inteligente”. 

Após alguns segundos em silêncio, no qual fiz uma rápida recuperação mental dos assuntos que estávamos conversando, embora não discordasse dela, de forma alguma, não me ocorreu nada de espetacular que o mesmo tivesse dito nem assunto algum que pudesse ter ocasionado tal observação, uma vez que estávamos conversando assuntos corriqueiros, próprios de momentos de descontração. Curioso, perguntei então, porque ela chegara aquela conclusão ou fizera a observação naquele momento, ao que a mesma respondeu: “Os assuntos sobre os quais ele fala são interessantes, não me cansam, não são rasos”.

Para mim foi interessante e inesperada a observação feita. Pensei em quanto tempo, durante minha vida, não tive um olhar apurado para identificar características das pessoas. Não se trata de distinguir ou julgar o bom e o mau, o inteligente e o ignorante, o maldoso e o (sabe de nada) inocente, o competente e o incompetente, definitivamente. Antes, é conhecer, pelas ações e pelas decisões, ao longo do tempo, as características que as pessoas tem. Lembro que em 2010, findo um dia de trabalho, um colega da época me fez uma série de observações sobre outros colegas, relacionando ações que tinham tomado com características que tinham; naquela época me surpreendi porque até então nunca havia pensado desta forma sobre as pessoas. Basicamente não pensava sobre isto e as observações que ele fez me abriram um mundo de novas possibilidades, onde as ações das pessoas não ocorriam de forma desordenada ou aleatória, mas sim seguindo padrões de comportamento de acordo com suas características.

Entretanto, é tentador pensar que, por conhecer as características ou verificando as ações que as pessoas tomam, podemos conhece-las por completo ou conhecer suas intenções, de forma clara, distinta e infalivelmente correta. Destas avaliações muitas vezes extraímos conclusões e acabamos por rotular as pessoas, dizendo que o João é preguiçoso, a Maria é ingênua, o Pedro é insensível e assim por diante. Além de tentador, pode ser um tremendo erro e uma subestimação do ser humano, um ser com tanto potencial e possibilidades de melhorar, se regenerar, reinventar, eventualmente “tornando-se outro ser”.

Atualmente estou lendo o livro (bastante interessante e de leitura recomendável, diga-se de passagem) Conversas difíceis, que aborda, entre outras questões, os nossos julgamentos sobre as intenções de outrem. É inegável que a questão da “rotulação” acima descrita é característica congênita do ser humano, podendo ser verificada até mesmo em crianças e não é de todo ruim, pois através deste conhecimento podemos nos resguardar de algumas pessoas e nos precaver de seus comportamentos destrutivos; porém, como tenho abordado desde o início do texto, são características que as pessoas possuem; as más podem ser melhoradas, as boas podem se deteriorar e se extinguir, outras podem nos incomodar em um momento e noutro momento não fazer diferença, ou ser aceitáveis num grupo e noutro grupo não, enfim, infinitas possibilidades.

Obviamente que temos padrões dentro da sociedade do que é aceitável ou não, ético e anti-ético, moral e imoral, legal e ilegal. Porém, muitas vezes a questão é de aceitação do outro ser humano que, mesmo tendo cometido um ato totalmente perverso, ainda assim continua sendo um ser humano, tão sujeito a erros, acertos, necessidades físicas e emocionais quanto qualquer outro. Por vezes substituímos a compaixão pelo próximo por nossa sede de vingança travestida de sede de justiça; esquecemos que hoje é ele que está na cadeira dos réus, amanhã pode ser eu ou tu, e um dia seremos todos nós, indistintamente. Na linha de pensamento de um ditado popular, quando nos acharmos grandes, fortes, autossuficientes, poderosos, imbatíveis e invencíveis, devemos visitar um cemitério e contemplar quantos que foram assim antes de nós e qual seu final. Afinal, se a morte não faz sentido, a vida também não faz. Que possamos, todos, ser mais benevolentes com nossos semelhantes.



Samuel Bonette

quinta-feira, 6 de março de 2014

Boneco doido, vai boneco doido

Boneco doido, arte, música, relacionamentos, Belchior - www.samuelbonette.blogspot.com
Sabe quando começamos a fazer um texto ao contrário? Não, acho que ninguém faz isto. Embora hoje eu tenha feito. Enfim. O primeiro parágrafo que escrevi foi o derradeiro. A minha introdução na verdade foi minha conclusão. Mas ainda não desça até lá, tenha paciência, espero que no final tudo faça sentido para todos. Vou fazer uma pequena linha do tempo para que entendam.

Hoje estou cansado. Na minha discoteca mental o top das paradas de sucesso foi: “Boneco doido / vai boneco doido / vai boneco doido / todo mundo vai te acompanhar”.  Um tanto natural, em tempos de carnaval. Mas imaginem vocês que saí de São Leopoldo e andei 36 km com esta música a todo volume dentro da minha cabeça. Acelera, acelera, acelera, reduz marcha e velocidade, liga pisca, passa para pista da direita, desliga pisca, aumenta velocidade e marcha, liga pisca para o outro lado, passa para pista da esquerda, acelera, acelera, dá passagem para o veículo que está vindo mais rápido que tu, acelera, acelera... E a música ali: “Boneco doido / vai boneco doido...”.

Entremeio a direção e o “boneco doido”, pensei sobre as pessoas com síndrome de Peter Pan, ou seja, pensam que são eternas crianças ou adolescentes; pensei também sobre o quanto eu me sinto assim, ainda que involuntariamente, especialmente quando não consigo resolver um problema; ou quando ainda penso que todo mundo é mais alto que eu; ou quando não me sinto adulto o suficiente para entender a complexidade de alguns relacionamentos matrimoniais cujos entes partilham as suas multiformes particularidades; ou ainda quando comparo meus comportamentos com comportamentos de outros. Inevitavelmente, por vezes não consigo lidar com minhas expectativas e frustrações e sinto-me uma criança.

Por outro lado, por toda a minha sempre me relacionei com pessoas mais velhas que eu; embora tenha desenvoltura com pessoas de todas as idades, buscando adaptar-me ao contexto no qual estou inserido, naturalmente formei meu ciclo de amizades com pessoas mais velhas que eu. Ao contrário, conheço pessoas que formam seus ciclos de amizade sempre com pessoas mais novas, mas ao invés de servirem de referência para tais, de forma que estes cresçam, agem como os mesmos, definhando assim seu próprio crescimento. Não sou partidário de um jargão aí que diz que devemos andar sempre com pessoas mais fortes que nós, pois o mesmo não se sustenta numa visão macro, uma vez que eu iria querer andar com pessoas mais fortes que eu, mas elas iriam me repudiar por ser mais fraco, logo ficaríamos todos sós. Entretanto, precisamos ter um mínimo de “semancol” para não cair em tolices infantis.

Quando estas coisas todas sobrepujaram meu espírito, reconheci que precisava ouvir música. Então conheci estes versos e achei genial: “Por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blues; sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 76. E eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês”. Acho genial o fato de uma pessoa conseguir comprimir em alguns versos o sentimento que uma população teve durante um ano inteiro! Creio que músicos são gênios, não no sentido estrito e tradicional de se pensar a genialidade, mas sim como... uma genialidade ao contrário. Disse para a Bibiana: este cara é um gênio, mas ao contrário. Ela, por sua vez, respondeu genialmente: ele é, portanto, um oinêg.



Samuel Bonette

sábado, 18 de janeiro de 2014

Admiráveis gênios novos

Admiráveis gênios novos - www.samuelbonette.blogspot.comÉ bom que minha primeira postagem de 2014 seja na madrugada de sexta para sábado; enquanto ouço o barulho do chuveiro vindo do banheiro ao lado, do ar condicionado acima de minha cabeça, minha Loretta está deitada aos meus pés, corpo em postura relaxada, porém de orelhas em pé, indicando atenção ao que se passa ao redor. Nesta noite merecidamente folgada de sexta-feira, depois de assistir dois filmes, sendo um deles chamado “Três é Demais”, ponho-me a escrever.

De tanto falar em filmes, talvez alguém até possa achar que sou viciado neles, mas esta suspeita não se confirma; aliás, reconheço que sou muito suscetível a erros na hora de escolher filmes, especialmente no que diz respeito a descartar filmes por seu nome e sinopse; devo ressalvar que as versões brasileiras para os nomes dos filmes bem como a sinopse dos mesmos me induzem fortemente a este erro. As aventuras de Pi foi meu último exemplo de filme que quase deixei de ver (mais em virtude de um preconceito meu); só rendi-me ao filme por suas imagens espetacularmente coloridas, o que me proporcionou conhecer uma bela história.

Ainda hoje refletia sobre este assunto de pré-conceito (o popular preconceito), conceito, pós-conceito e ausência de conceito. Conclui que existe uma certa confusão sobre o que são. Conceito é definido comumente como uma idéia, opinião ou juízo sobre algo, ou seja, uma definição. Preconceito é quando fazemos isto de forma antecipada aos fatos. Pós-conceito seria quando mudamos nossa própria opinião após um conceito estabelecido e ausência de conceito seria quando não temos conceito sobre algo.

Atualmente existe um preconceito sobre o preconceito ou sobre os preconceituosos; o sujeito não pode ter preconceito ou ser preconceituoso que ele é considerado pior do que o micróbio dos excrementos do cavalo do bandido; os pretensos não-preconceituosos são mais preconceituosos com os preconceituosos do que os preconceituosos são a respeito do que tem preconceito (a frase ficou meio difícil de se entender mas é proposital... é só ler devagar que dá para entender).

Entretanto, ignora-se que o preconceito pode ser um conceito ou pós-conceito tomado de outrem, advindo de uma experiência pessoal que se tomou como regra. Por exemplo: uma pessoa comprou um aparelho eletroeletrônico de um asiático e era falsificado; sentiu-se prejudicada e confidenciou a um amigo, que por sua vez tomou o pós-conceito do primeiro e vestiu como seu próprio preconceito contra asiáticos vendedores de eletroeletrônicos. Não posso culpá-lo, certo? Talvez até seja justo este preconceito tendo em vista a experiência de seu amigo.

Acredito que todos temos preconceitos em maior ou menor grau e considero-os imprescindíveis para a continuidade da raça humana, embora alguns me incomodem profundamente (especialmente sobre raça/cor). Contudo, o que mais me irrita é a tentativa de empurrar ausência de conceito a título de não-preconceito; há pessoas que só sabem fazer isto na vida, simplesmente desprezando milhares de anos de conhecimento acumulado a título de “não ter preconceito”, o que acaba gerando uma ausência de conceito destruidora para a humanidade; estes desconsideram a objetividade e factibilidade de coisas já devida e exaustivamente comprovadas em favor de seus próprios pensamentos e julgamentos. Consideram-se gênios inventando a roda mas são asnos cauterizando suas mentes.

A estes, sugiro que lancem fora algumas ideias preconceituosas que ainda os prendem, como por exemplo contra o fogo (não tenham preconceito contra lançar-se numa fogueira) ou contra a lei da gravidade (que preconceito afirmar que o homem não pode voar ao lançar-se do alto de um prédio), contra objetos pontiagudos(quanto preconceito pensar que eles podem perfurar nossa pele ou objetos) e outros tantos preconceitos... quanta tolice preconceituosa, não?

Por fim, espero que não sejam preconceituosos com a história e deixem de desprezar tanto esforço que já foi feito e conhecimento que já foi acumulado; antes tínhamos mais preconceitos e menos roubos, estupros, assassinatos e toda a sorte de males sociais que tem nos afligido.

Samuel Bonette



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shakespeare protesto teatro representa - www.samuelbonette.blogspot.com.br



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Alguns segundos e uma vida


Faz tempo que não escrevo; estava sentindo falta; muito provavelmente não consiga atingir meu objetivo, de 12 textos no ano, média de um por mês. Um mês é um tempo muito curto para parecer tão longo; tem apenas quatro ou cinco sábados, quatro ou cinco domingos, um dia de pagamento, um dia de fechamento de folha, apenas um dia 30, então é pouco tempo para escrever. 

Se eu não o faço, entretanto, me intoxico; muitas ideias em ebulição, abstração e objetividade alternada e alternativamente variantes, vou me enchendo do mundo e de seus fatos, inflando e insuflando, parece que me vejo como nos desenhos, saindo vapor pelos meus ouvidos. Lembrei ainda hoje de um fato ocorrida há muito tempo atrás; não poderia deixar de registrá-lo; segue abaixo:

Um dia destes, cheguei para trabalhar mais cedo que o habitual; sete horas e eu já estava no meu ambiente de trabalho. Na sala, apenas eu e minha colega, par de atividades. Sentávamos de frente um para o outro. Estávamos absortos em absoluto silêncio, quebrado apenas por um rádio ligado numa estação de rádio qualquer, no volume mínimo. Eu fazia parte do serviço, ela outro. Estávamos ambos cansados e naquele clima que normalmente acontece de manhã bem cedo, quando ninguém quer falar nada. A cena que vi não durou mais que um minuto, mas foi o suficiente para me intrigar até hoje.

Começou a tocar uma música que até então eu não conhecia; falava sobre um relacionamento aparentemente rompido, em que ambos continuavam suas vidas, mudavam de hábitos, conheciam novas pessoas, entretanto, o amor entre eles não tinha terminado. De um lado, a menina esperava que ele ligasse; do outro, ele até queria ligar, mas tinha medo porque pensava que talvez ela já o tivesse esquecido, conhecido outra pessoa, que desprezaria sua saudade, seu sentimento. Ambos sabiam, porém, que era amor o que sentiam; era amor o que haviam sentido; seria para sempre o registro de um amor, mesmo que um dia acabasse. Entre eles tinha acontecido uma história de amor. Por fim, a música não registrava final feliz.

Durante algum tempo, esta minha colega parou seus afazeres e ficou olhando para o nada, olhar vazio e distante, talvez procurando seus próprios sentimentos dentro das lembranças ou mesmo dentro da música; sobre ela, eu sabia apenas que era casada com alguém que conhecera ainda no colégio, que estava há muito tempo com esta pessoa; sempre fomos muito reservados com assuntos pessoais, mas aquela música tirou-a do normal, fez algo vir a tona; lembranças de um amor adolescente não confirmado, sentimentos de rejeição, impressões íntimas, suspeitas, uma simples reflexão, não sei... até hoje penso no que se passou em sua mente, não consigo esquecer aquele olhar, enquanto soava o refrão.

A música, o lugar e o refrão? Que importa? Você não se reconhece na história e não achas que ela poderia ter acontecido contigo? Tem certas coisas que são universais, e nem precisam ser verdade para que acreditemos que elas realmente aconteceram. Nossas vidas estão aí para ser contadas em alguma música.


Samuel Bonette.

domingo, 16 de junho de 2013

Shakespeare não me representa

Shakespeare não me representa - www.samuelbonette.blogspot.com
Ser ou não ser! Eis a questão. Imediatamente nos advém a memória alguém com uma caveira na mão, representado um discurso filosófico da Tragédia de Hamlet, de William Shakespeare. Engraçado que se pareça com o slogan atual dos brasileiros: Isto não me representa; em meio a chiliquenta luta por direitos homossexuais, onda de protestos eclodindo pelo país em nome de pretensos R$0,20 e gastos públicos infindos com Copa das Confederações e Copa do Mundo, alargou-se o modismo de “Feliciano não me representa”, “Dilma não me representa” e “Blá blá blá não me representa”.

Representar, segundo o dicionário Priberam Online pode ser empregado em pelo menos 12 sentidos, todos eles indicando alguém fazendo algo por outrem. Num país historicamente marcado pelo conformismo da maioria de sua imensa população, não chega a me surpreender, mas irrita. Irrita quando as pessoas dizem que “políticos não me representam”, mas em época de eleições, não exercem adequadamente seu direito de voto; irrita porque as pessoas dizem “ladrões não me representam”, mas não perdem a oportunidade de ficar com cinco centavos a mais num troco calculado incorretamente; irrita quando dizem “Feliciano não me representa” mas não suportam ouvir opinião sexual divergente das suas próprias.

Por outro lado, uma porcentagem ínfima de agitadores e/ou filiados partidários radicais, protegidos e ao mesmo tempo insuflados pelo anonimato que as multidões proporcionam promovem a balbúrdia e desordem, caos e pânico, destruição e terror por onde passam. Como conhecedor da história da humanidade, não desconheço nem desprezo a guerra, suas causas e consequências; nelas, o aspecto psicológico é fator importantíssimo, senão preponderante. Desta forma, ter reação muito maior do que a ação é de suma importância para amedrontar o inimigo.

Esta é a estratégia atual utilizada pelos comandantes do agora fortalecido movimento pela redução das tarifas de ônibus (já nominado por alguns como Primavera Brasileira). Quando os primeiros protestos começaram em Porto Alegre, pessoas de outros estados vieram “infiltrar-se” para adquirir experiência e propagar o comportamento em seus estados, segundo reportagem de Zero Hora. Isto demonstra o que me referi acima, sobre os agitadores. Fenômeno do comportamento das massas, diria Gustave Le Bon.

Porém, convenhamos. Não precisamos de representação. O que precisamos (ou queremos) devemos fazer com nossas próprias mãos, ou voz, ou seja lá o que for. Especialmente, não precisaríamos ficar falando “isto ou aquilo não me representa”, pois muitas coisas não nos representam, especialmente numa sociedade pluralista, diversificada. Deveríamos, se assim fosse nossa vontade, dizer “isto ou aquilo nos representa”, indicando assim aquilo ao qual nos somamos. Seria mais coerente, inteligente e racional.

Todos temos limitações, mas penso que ninguém deveria limitar-se a dizer “Isto não me representa”; represente a si mesmo no teatro da vida!


Samuel Bonette



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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sobre chaves, portas e fechaduras


Chaves, Oportunidades, Vida, Relacionamentos - www.samuelbonette.blogspot.com.br
Estávamos, enfim, a sós. Frente a frente. Olhei para ela, e nada mais se interpunha entre nós. Podia ver seus olhos me dizendo: “Tu mexes comigo”. Então, naquele misto de suspense e adrenalina, os segundos passando como se fossem horas, a expectativa latente, dei o primeiro passo e logo em seguida o último que me separava dela; estendi a mão, toquei no seu corpo e a girei lentamente em sentido horário uma, duas vezes. Podia sentir o seu corpo gélido a me separar do resto do mundo. Dentro das quatro paredes, sussurrei: “Chave, o que seria de mim sem você, para poder trancar esta porta?”. Ela não se manifestou, mas senti que estava cheia de orgulho por ter cumprido bem o seu papel.

Como diz um famoso texto que circula nos corredores da web, é tempo de deixar as roupas velhas, aquelas que já estão moldadas a nosso corpo, e vestir vestes novas (algo assim, não lembro o texto exatamente). Da mesma forma, é necessário trancar atrás de nós aquilo que não agrega. As férias que não deram certo, o negócio que não pode ser concretizado, o sonho que não pode ser vivido, o xingamento que levamos de graça, o corte que levamos do chefe ou do amigo amado, aquelas pessoas que só nos trazem problemas ou nos desencorajam, o arroz que queimou no dia do aniversário... Também precisamos, as vezes, trancar atrás de nós aquilo que nos faz crianças ou o que nos faz adultos, dependendo da situação pois ora agimos como crianças insistindo naquilo que jamais dará certo, ora agimos como “adultos”, deixando de lado o impulso infantil de sempre tentar e desistimos daquilo que daria mais certo na vida, bastando apenas um pouco mais de esforço.

Lembro-me da Porta da Esperança (aquela mesmo, do Sílvio Santos) e da Porta dos Desesperados (a versão ié-ié do Serginho Mallandro); nesta última, não raras vezes as crianças trocavam um presente legal por uma surpresa desagradável. Certamente que não sabiam o que tinha atrás da porta, mas depois de se esforçarem tanto pelo prêmio, acabavam trocando por uma coisa inútil; o contrário também acontecia algumas vezes, mas o mais marcante com certeza era a troca do legal pelo inútil. Frequentemente as pessoas associam portas com acesso, mas não posso deixar de refletir que, mesmo que a porta aberta significa acessar um lugar novo, também é saída do ambiente em que estou, ainda que seja um ambiente aberto. Portas também podem simbolizar escolhas erradas.

E por fim, sempre a enigmática chave. Um pequeno pedaço de aço que, combinado com o dispositivo da fechadura, pode selar um reino inteiro ou pô-lo em ruína. A porta numa parede ou muro é o que o torna vulnerável: se está aberta, todo o resto também está a disposição de quem quer que seja mas se estiver fechada é o que lacra e divide em dois o terreno. O que determina se o outro lado das paredes ou muro estão seguros é a capacidade da chave em garantir a inviolabilidade dos mesmos. A porta garante que há saídas, mas a chave garante que a possibilidade de sair é real. Não existe chave sem porta nem porta sem chave.

E afinal, de que lado da porta estamos? Estamos adentrando outro ambiente ou deixando o primeiro? E a chave está nos livrando daquilo que para trás fica e nos aproximando da felicidade ou nos levando para um caminho inexplorado, distante daquilo que temos e nos faz felizes? Estamos realmente diante da porta correta? E a chave? Será mesmo que devo levá-la para que possa, em tempo adequado, retornar e reabrir esta porta ou devo jogá-la por baixo da porta para que nunca mais tenha acesso ao que está ali?

As portas permitem o arrependimento, mas as chaves são implacáveis. A maior covardia de um humano é girar e retirar da fechadura uma chave cuja porta não poderá encontrar depois.

Samuel Bonette


quinta-feira, 28 de março de 2013

Sonhos - É bom este sonho, hein ô...

Sonhos, Paulo Brito, Escolhas, Escritor, Oportunidades - www.samuelbonette.blogspot.com.br

         Sonhei com o Paulo Brito. No meio da noite de ontem, estava eu na minha cama, dormindo, e bem no meio da minha imitação de Paulo Brito, o mesmo surge num Palio vermelho, me vê e começa a rir da minha imitação. Ainda tentei engatar uma conversa, mas o mesmo manteve-se em seu caminho, sorriso nos lábios, misto de desdém e diversão. Paulo Brito despropositado, invade meu sonho, não conversa comigo e tão rápido quanto aparece, some.
Uma vez também sonhei em ser escritor; tinha aproximadamente sete ou oito anos de idade e consumia livros vorazmente. De tanto ler, julguei-me apto a escrever livros; comecei a escrever uma história, mas queria publicá-la por uma grande editora. Enviei então uma carta para a editora do livro que estava lendo naquela época (creio que era a Editora Moderna). Para fechar negócio rápido, dispus-me a negociar posteriormente a minha porcentagem sobre o lucro da vendagem do livro; algum tempo depois, mandaram-me uma carta agradecendo meu interesse mas informando que o quadro de escritores já estava preenchido. Como já fazem uns vinte anos, eles devem estar quase se aposentando e então terei uma chance.
Outro sonho que tive na vida foi ser músico. Aproveitando-me das condições favoráveis pré-existentes (pai cantor e mãe instrumentista), comecei a aprender a tocar violão desde cedo, acho que desde os cinco anos. Ganhei um violão Giannini de cor branco gelo e bordas pretas e fui aprender fazer aulas com o bombeiro Cláudio, que era também um músico de festa juninas, aniversário de crianças e comemorações de escolas nas horas vagas. Infelizmente não soube lidar com a fama repentina e estagnei no aprendizado. Praticamente um Jordy.
Por diversas vezes sonhei com o que faria se ganhasse na Loteria. Em todas as vezes a minha primeira atitude seria sair viajar sem falar nada a ninguém. Não pediria demissão do meu trabalho, não diria aos vizinhos: “Viajarei por uns dias”, não comunicaria nada a ninguém, simplesmente sumiria. Por convicção, entretanto, nunca sequer apostei e também não apostarei; sou convicto de que cada centavo que gastar com isto me fará mais pobre e não mais rico. Como diz a minha sogra: “Eles não botam para perder”. Mas confesso que já sonhei com o que fazer com o dinheiro caso ganhasse.
Aos 12 anos sonhei que aos 18 moraria nos sobrados da Cohab, em Horizontina, teria um Fusca branco e moraria sozinho. Dinheiro para isto não era problema, afinal era um sonho e quando eu tivesse 18 anos as condições necessárias automaticamente surgiriam em minha vida; nada poderia estragar meu sonho. O que atrapalhou foi que quando tinha 13 anos nos mudamos para Torres. Detalhe. Um dia eu volto nos 18 e cumpro o sonho.
Já sonhei em poder adiantar o tempo na minha vida e passar do jardim de infância direto para o terceiro ano do segundo grau, voltar o tempo na minha vida, passando da sétima série para o jardim de infância, mudar o rumo da minha vida... Já tive inúmeros sonhos, e todos eles sempre me levaram adiante, como fazem com todos os seres humanos; o ser humano que perde os sonhos perde também a sua essência e razão de seguir em frente. Ainda tenho tempo para ser escritor, músico ou morar nos sobrados da Cohab, mas, Paulo Brito, por favor, pare de se intrometer nos meus sonhos... o Maurício Saraiva está te chamando ali na esquina.

Samuel Bonette.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Feirão da ideia alheia

Ideias, vendas, conceitos, princípios, relacionamentos - www.samuelbonette.blogspot.com

             Boa noite amigos. Como é bom tirar férias e descansar. Retornei há pouco ao trabalho árduo e dignificante, o que também me possibilita pagar minhas contas, não nego. Entretanto, realmente gosto do que faço; como é bom trabalhar com paixão pelo que se faz! 



Lembro como se fosse hoje do dia em que decidi trabalhar com Recursos Humanos: estava viajando com meus pais na Free-Way, trajeto Torres – Porto Alegre, no dia em que nos mudamos para a capital dos gaúchos. Era um dia de muitas expectativas, pois estava indo para a “selva de pedra” que ao mesmo tempo era a terra das oportunidades; então, no banco traseiro – onde me encontrava – achei, entremeio a tantas outras coisas, um pequeno livro de capa azul chamado Administração de Pessoal e Recursos Humanos, da editora Senac. 



Apesar do mesmo contar com apenas 45 páginas, logo após a leitura este definiu naquela tarde meu futuro profissional. Tenho este livro até hoje, mas não sei exatamente o que diz nele; nunca o reli. Porém ele me impulsionou a querer trabalhar com RH; na época raciocinei que para conseguir era necessário fazer curso superior em Administração de Empresas e também corri atrás disto. Daí decorrem inúmeras situações na minha vida, mas não é o momento de ficar falando sobre isto; um dia eu conto para vocês.

Fato é que um livro de 45 páginas foi capaz de nortear minha vida profissional. Um pequeno livro foi capaz de causar muitas coisas na minha vida; isto me leva a pensar que o escritor me vendeu muito bem o seu peixe, como diz o ditado; talvez houvesse em mim alguma pré-disposição a inclinar-me para esta profissão, mas quem escreveu o livro conseguiu me convencer que era isto o que eu deveria fazer. 



Há pessoas assim: algumas que vendem e outras que compram. Conheço pessoas que vendem o tempo todo: estão sempre vendendo algo a nós; ele não tem uma TV, ele tem uma TV de LED da Samsung de 52 polegadas Full HD e que está integrada a um home theater em uma sala projetada para ser acusticamente igual a um cinema; o seu carro é melhor porque pagou R$ 102.309,45 a vista na concessionária mais badalada da cidade, aquela onde o cliente é saudado com coquetel de canapés e champagne; ou então é melhor porque é do mesmo ano mas ele pagou mais barato e está melhor conservado, tendo inclusive todas as revisões feitas na concessionária; a comida que ele faz é a mais saborosa pois é feita com azeite de oliva extra extra virgem de Israel, as azeitonas são colhidas no Camboja ao amanhecer e as batatas são plantadas no solo mais fértil e produtivo dos Estados Unidos e assim por diante.

Por outro lado, há pessoas que estão o tempo todo comprando: precisam da cafeteira nova porque ela faz o café mais frio que as outras, já na temperatura ideal para ser tomado; o fato de ela custar R$ 999,00 não é nada face ao benefício de tomar o café tão logo ele seja passado; e o que falar daquele novo tablet, então? Tem incríveis duas funções a mais que a versão anterior pela bagatela de R$ 2800,00 e, como ela é uma pessoa antenada com as novas tendências não pode ficar sem, né? E, para tudo!! Ainda nem falamos da nova cafeteria que abriu na esquina que é inspirada nas cafeterias francesas! Ela só serve pão francês, baguette e brioches mas tem um francês (nascido na França, mesmo) que toca gaita ao vivo! Pena que é mudo e ainda não pudemos vê-lo falando francês.

Lembro muito bem até hoje de um RH que trabalhei no qual todos ficavam o tempo todo vendendo para outro; cada qual tinha o melhor plano de celular da sala, o melhor aparelho, as melhores soluções para os problemas e por aí afora; não vendíamos produtos ou serviços, vendíamos ideias uns aos outros. Assim é a vida, com os dois grandes grupos sempre em interatividade, ora convergindo, ora divergindo, pois as vezes o mesmo que compra é o que vende e o que vende também está comprando algo; em cadeiras de marketing a professora sempre dizia que o que era vendido não era o bife em si, mas o barulhinho da chapa e o vapor subindo; para ser perfeitamente efetivo, tinha de ser no momento que a pessoa estivesse morrendo de fome, de forma que aquilo se tornasse irresistível. A primeira coisa a ser vendida é, inevitavelmente, a ideia. 



Comparando os grupos, diria que está mais vantajoso para os que vendem do que para os que compram, pois aqueles que vendem estão vendendo com uma facilidade terrível; os que compram, por outro lado, não estão tendo senso crítico em avaliar se é realmente válido ou necessário comprar o que está comprando; há uma enorme discrepância entre preço (aquilo que se desembolsa para obter o produto/serviço) e o valor (os benefícios que seriam percebidos com a posse e utilização do produto/serviço); como disse antes, a venda hoje se dá no campo das ideias e em tempo de incertezas e muitas mudanças o que não é parece ser e o que é parece não ser. Vender também é uma arte de iludir e ludibriar (vide texto Glamour)

Dizem que a profissão mais antiga do mundo é a prostituição e a segunda a advocacia, mas eu diria que a mais antiga é vender, pois a serpente vendeu a Eva e esta vendeu a Adão a ideia de que poderiam ser iguais a Deus. Há quem acredite nisto ainda nos dias atuais, mas tal qual da primeira vez, esta ideia pode ser vendida, pode ser comprada, mas não pode ser usufruída.

Samuel Bonette

sábado, 12 de janeiro de 2013

Considerações iniciais, um pouco de justiça ou vingança, como queiram...

Considerações iniciais, um pouco de justiça ou vingança, como queiram - www.samuelbonette.blogspot.com

Boa noite. O mundo não acabou, como eu acreditava, então pude fruir minhas merecidas férias. Acredito que todas as férias são merecidas, mas para mim está sendo realmente emocionante tirar férias. Também fico feliz porque estou melhorando. Em 2012, na minha primeira postagem do ano me propus a postar no mínimo 7 textos, o que havia sido o recorde de postagens num mesmo ano (alcançado em 2007, primeiro ano do meu blog), e consegui superar a meta em 28,57%, postando 9 textos (Hehehehehehe... não posso deixar de me divertir comigo mesmo e a mania de mensurar as coisas). Também fico feliz pois no ano de 2012 continuei a trajetória ascendente iniciada em 2011, quando postei 6 textos, ao contrário de 2010, ano em que postei 1 texto somente. Então, meta lançada: superar as 9 postagens de 2012.

Fico feliz também de estar alcançando 6 anos de blog que, muito embora não seja o estrondo que eu gostaria que fosse, me permite expressar algumas opiniões e me satisfaz plenamente no que diz respeito ao meu gosto por escrever. Quero saudar os meus leitores internacionais, especialmente o leitor (ou leitores) da Rússia. É muito gratificante ter leitores em países do mundo que jamais imaginei alcançar. Espero que os textos possam ter te entretido, divertido ou mesmo ajudado; me sinto lisonjeado de forma inenarrável.  Também quero recomendar um site bem legal que, após um teste composto de uma série de perguntas, descreve a tua personalidade dentro daquelas pré-estabelecidas tendo como embasamento teórico quatro modelos lá descritos. O site é o Inspiira. Recomendo a todos, pois até agora todos os que fizeram o teste me relataram que ele foi bem assertivo na sua avaliação.

Mas vamos lá... como já gastei meia página com agradecimentos e considerações quero ser bem sucinto num assunto que já estava pensando sobre, mas sobre o qual fui amplamente bombardeado, coincidência ou não, nos últimos dois dias através de filmes e frases sobre. O assunto é vingança x justiça. Hoje mesmo assisti um trecho de um filme do Batman no qual ele falava que vingança e justiça muitas vezes são a mesma coisa. Tenho de discordar. Justiça é o que acontece quando o mal recebido é reparado, através de julgamento feito por terceiros com conduta ilibada; vingança é o que acontece quando, pelas próprias mãos ou pelas mãos de outrem, o mal recebido é devolvido com maior força ou proporção; ainda que seja na mesma proporção, é vingança. Semana passada assisti o filme O Conde de Monte Cristo, cuja história é a busca por vingança, e uma reportagem na TV sobre dois assassinatos por motivos frívolos, sobre os quais os familiares das vítimas clamavam por vingança.

Óbvio que no Brasil temos muitos problemas com no sistema judiciário em geral, o que não é segredo para ninguém. Entretanto, vejo que o maior problema é justamente o fato de as pessoas quererem vingança e não justiça. Se todos nós quiséssemos justiça, seria uma via comum o assassino confessar o crime, cumprir uma pena justa e após retornar ao convívio da sociedade. Entretanto, como queremos vingança, obviamente que o assassino não vai querer confessar o seu crime visto que a confissão geraria em nós uma vontade de matá-lo ou submetê-lo a sofrimento infindável. Tenho a convicção de que o sistema prisional brasileiro piora as pessoas, já que são tratados com desumanidade e isto não é defesa aos condenados que lá estão cumprindo suas penas.

Não quero fazer um raciocínio raso, pois como disse quero ser sucinto e este assunto é muito amplo e complexo, desperta as paixões e sentimentos mais obscuros do ser humano. Quero somente trazer uma reflexão sobre o que alimentamos dentro de nós; mesmo a justiça sem amor pode ser cruel e quando em demasia torna-se vingança. O perdão, ao contrário, nos torna melhores e mais humanos, mais tratáveis e respeitáveis. Só pode fazer justiça e perdoar aquele que tem amor, eis o paradoxo.

Samuel Bonette